Pois é, o nome não poderia soar mais
estranho.
Mas o fato é que que quando um casal completa 29 anos de casados, eles comemoram 'Bodas de Erva'.
E mais um ano eu participo ativamente da comemoração - ou melhor, da
celebração - do casamento dos meus pais.
Isso, inclui, ajudar ambos a escolher os presentes um para o outro (é como se eu fosse a amiga-cupido do casal 20); além de escolher um presente especial que me deixe fora do programa (porque eu tenho simancol e gosto de dar privacidade aos pombinhos).
Mas a verdade é que ver os meus pais comemorarem mais um ano juntos dá aquela
pontinha de esperança que toda pessoa procura na vida! A verdade indescutível diante dos meus olhos.... que um dia eu
vou achar a tempa-da-minha-panela, ou a metade-da-laranja, etc.
A história deles é estranhamente intrigante, como a dos casais de romances que compramos em livrarias ou vemos na tevê. O que dá mais um empurrãozinho na
ilusão da tampa...etc.
Há mais de 30 anos atrás as coisas eram diferentes no mundo. Meu pai trabalhava como bancário e vivia com a mãe e a irmã caçula. Os outros quatro irmãos já tinham casado e a formavam sua família.
Ele tinha acabo de terminar um longo relacionamento, e restava alguns eletrodomésticos e um terreno, fruto do
antigo-futuro-casamento.
Apesar do jeito tímido e desajeitado do rapaz alto, magro, com óculos espessos e estretamente educado - voz de locutor de rádio - as moças pareciam ser muito
gentis com o meu pai, principalmente porque ele era um bom partido para a época: tinha carro, um bom cargo em um grande banco, casa e até mesmo eletrodomésticos! E ter cruzado as interesseiras, o fez um tanto
seletivo.
Além disso, a saúde de minha avó não era mais a mesma e ele cuidava das duas, minha avó e a irmã caçula.
Com a minha mãe era a quase a mesma coisa. A não ser pelo fato de que, filha única, ela ainda possuía ambos os pais. Um pai presente e ativo, mas uma mãe com a saúde frágil e delicada - minha avó sempre foi um dos centros da nossa preocupação, até que ela se foi, como um dia iremos todos nós.
Minha mãe era uma moça bonita, com cintura fna, pés pequeno, cabelos preto-azulado com cachos e uma pele clara. Simpática, falante e
geniosa - acho que sei de quem puxei uma coisa aqui.
Ambos frequentavam o mesmo lugar todas as terças-feiras, à noite. Meu pai já havia notado a moça simpática da biblioteca, mas nunca realmente chegou a se aproximar - cautela desde o último relacionamento desastroso, talvez? Meu pai é uma pessoa
muito comprometida. Do tipo sério o bastante para se decepcionar de uma maneira surreal com a falha, ainda que não seja a sua (ops, mais uma característica
minha aqui!).
Foi então que em uma terça-feira, ele resolveu tomar coragam e alongar a conversa com a simpática moça da biblioteca, apesar de possuir todo e cada livro que estava ali. Assim ele fez algumas vezes, até tomar coragem para convidá-la pra sair.Aparentemente, a moça não era comprometida com ninguém. Estava sempre acompanhada pelos pais, pelas amigas. Não usava aliança.
Ainda assim ele levou uma negativa. O fato é que meu pai não percebera uma
terceira pessoa ali, por quem a minha mãe nutria sentimentos inutilmente - acho que entendo um pouco mais sobre mim por aqui
também - mas ela nada revelou sobre isso.
A negativa não desestimulou o meu pai. Ele manteve, com habilidade, a sua posição como 'amigo', fingindo ter sob controle outras intenções. Sua irmã caçula começou a frequentar o mesmo local e uma amizade surgiu entre as duas - que
oportuno!
Durante poucos mais de um ano foi assim. Meu pai ali presente como 'amigo', mas sempre atencioso
demais. Presentes, cartas, cartões de natal, páscoa. Ficou mais íntimo da família toda. Mas sempre se declarava como seu
irmão, e se referia á ela como
irmã no sentido cristão da palavra mesmo.
Meu avô aos poucos foi reconhecendo o rapaz gentil e falante que ele via anos atrás entrando no ônibus que conduzia na região do Pari, quando trabalhava na Sec. de Transportes. Sim, era ele mesmo, meu pai.
Coincidência?!
Algo mudou nesse meio-tempo, minha mãe desistiu do amor platônico e olhava com outros olhos o
irmão de sua amiga. Quando, estimulado pela irmã caçula, ele convidou sua amiga para sair com segundas intenções, que ela percebeu, ouviu um 'sim'. Parecia não ter sido pega de supresa. A estretégia do meu pai finalmente deu certo!
Saíram e a noite foi tão agradável que meu pai ousou fazer A pergunta que há tempos estava em sua mente:
- Você quer casar comigo? (Ousado demais, certamente ele pensou). Sim, meu pai pulou
algumas partes e foi realmente direto ao ponto! Surpresa, minha mãe sorriu e sugeriu que eles namorassem primeiro.
Pouco mais de um ano foi o suficiente para acertar o que precisavam - casa, eletrodomésticos, enxoval, igreja, festa. Minha tia também já estava noiva, tudo se ajeitava. Minha avó paterna partiu e o meu pai mudou-se para a casa de minha mãe, esperando a data do casamento chegar.
O casamento foi simples, mas uma bela cerimônia. Minha mãe estava linda, com um vestido tradicional, radiante e parecia tão pequenina ao lado do meu pai, sempre legante em um terno escuro. O álbum de casamento é de causar suspiros...
Depois de sete anos, eles ganharam companhia...eu!
(A sortuda na história sou eu, com certeza...é uma honra compartilhar todos os dias essa felicidade! E de uma forma que eu sei que é possível, sempre assim....sempre fomos nós três!)
Recentemente se foram os meus avós maternos... nossa cadelinha Perra, minha
quase-irmã. Que saudades de todos! Mas nos restou a
caçula, minha gata Kate, além de um casal de canários que aumenta a prole todas as primaveras!
E assim vivem
os felizes, todos os dias. Claro, temos uns problemas aqui e ali. Mas não há um dia sequer que eu possa recordar em que meus pais tenham brigado ou se separado por motivo que seja. Eles discutem, sim, por razões banais e sempre se entendem.
Não há um dia em que meu pai esqueça de levar café na cama para minha mãe...ou segurar sua mão enquanto estão andando em qualquer lugar que seja...ou não lhe dê presentes
especiais em datas comemorativas como esta, surpreendendo-a. Sempre uma jóia delicada.
E ela está sempre cuidando das coisas dele espalhadas pela casa, lembrando de datas de exame e se compras, fazendo sua comida preferida. Sem falar que é a parte
super ciumenta do casal. Foi hilário sua face carrancuda me contando quando meu pai recebeu uma cantada homossexual - poxa,
dessa ela não podia ter ciúmes, vai?!
E eu? Recebo o
melhor dos dois - presentes em todas as datas especiais, jóias delicadas, café na cama quase todos os dias, bronca pelas coisas deixadas pelo caminho, recados lembrando-me de consultas e contas a pagar. Ainda que buscassem, nenhum deles parecia saber que um dia se encontrariam e que seria a família que somos. E hoje, a idéia de perder um ao outro traz um preocupação surreal aos dois, dá pra ver o pavor em seus olhos quando tem alguma doença, quando houve um acidente de carro. O mesmo acontece comigo, claro. Afinal, somos nós três, eu e o
casal 20...até o fim! E vendo a felicidade dos pombinhos, acredito mais nos contos-de-fada-da-vida-real, tão típoco nas propagandas de margarina.
* Impossível não pensar em você, nas nossas possibilidades, quando eu vejo o quandro à minha frente. Penso o quanto de fantasia existia no seu relato, descrevendo nosso casamento na praia ou o seu desejo de termos um filho. Será que um dia nós vamos estrelar também um comercial de margaria?